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… como e por que o trânsito enlouquece no Brasil

Posted in Falta de Educação, Respeito e Bom Senso., Meio Ambiente, Textos Diversos Recebidos by danielbiologo on 10 de fevereiro de 2011
 

Livro:  FÉ EM DEUS E PÉ NA TÁBUA – Ou como e por que o trânsito enlouquece
no Brasil
Autor: Roberto DaMatta

 

O trânsito nas grandes cidades brasileiras é unanimemente considerado

caótico – com uma alta carga de agressividade e violação das leis que

causam um grande número de acidentes e mortes. À parte a responsabilidade

do Estado pela manutenção das estradas e ruas, tanta tragédia sobre rodas

pode ser atribuída principalmente à cultura do brasileiro em dispor do

espaço público como seu e de mais ninguém. “Fechar”, “furar” e “dar um

balão” são as versões do popular “jeitinho brasileiro” usadas por

motoristas no dia a dia. O outro, aquele que é desconhecido, visto sempre

como inimigo, é um sintoma do comportamento do brasileiro. O estudo da

dinâmica do sistema de trânsito e como atuam e o que pensam seus atores

(pedestres, motoristas, caminhoneiros, motoqueiros, ciclistas) deram

origem ao ensaio inédito Fé em Deus e pé na tabua – ou como e por que o

trânsito enlouquece no Brasil, do antropólogo Roberto DaMatta.

O livro é resultado das pesquisas encomendadas pelo governo do estado do
Espírito Santo. O levantamento, realizado como parte do projeto Igualdade
no Trânsito, foi feito entre maio de 2007 e janeiro de 2008, e tinha,
entre seus instrumentos de coleta de informação, entrevistas qualitativas
com motoristas, pedestres e outros usuários do espaço público. O estudo
tinha como objetivo melhorar o trânsito na região da Grande Vitória.

“Dentro de um veículo viramos nazi-fascistas. Nos transformamos em
hierarcas superiores em um espaço marcado pela igualdade. Admoestamos quem
ousa desobedecer e desafiar o fato de a rua ser dos carros… Nossa
investigação teve como objetivo descobrir os notórios ataques de nervos,
traduzidos em rebeliões e agressões diante das normas de governabilidade
de um espaço que é de todos”, explica DaMatta. Esse é o ponto central do
livro, cujo objetivo é explicar as razões dessa mentalidade, que
transforma o espaço igualitário da rua em um local hierarquizado: “Nossa
tentativa é democratizar a rua, fazendo com que ela, tanto quanto a casa,
seja submetida a um código igualitário.”

Roberto DaMatta traça um panorama preocupante do comportamento do
brasileiro – não só no volante, mas para além dele. Um comportamento com
raízes profundas na constituição cultural do brasileiro. País com origem
escravista e aristocrática, onde o espaço de convivência é usado de
diferentes formas, dependendo da classe social. É a cultura da casa – onde
reside o personalismo, a leniência e um sentido de autoridade – levada
para a rua – onde as regras devem funcionar da mesma forma para todo
mundo, para manutenção da ordem social. No Brasil, no entanto, os “donos
da rua” fazem suas vítimas – nesta dinâmica, os pedestres –, cidadãos sem
direito de exercer sua cidadania com a igualdade que um espaço que é de
todos pede.

Para o autor, o automóvel é visto e usado justamente como instrumento de
poder, dominação e divisão social. O motorista se sente burlador do
sistema – as leis são para os outros – provocando caos social e no
tráfego. A “fechada”, o xingamento, a agressividade são reflexos claros do
conceito do “sabe com quem está falando?”, prática comum no Brasil que,
apesar de República, jamais perdeu sua cultura aristocrática.
Diferentemente do que ocorre em países e culturas onde o espaço público é
visto pelos cidadãos como pertencente a todos e, por isso mesmo,
respeitado naturalmente, no Brasil, motoristas e até mesmo pedestres
desrespeitam as regras do sistema criando, cada um à sua maneira, sua
relação com a rua. Daí a dificuldade em se criar a cultura da direção
defensiva, por exemplo, em que motoristas se antecipam às reações e ações
dos outros motoristas. Afinal, quem tem que se preocupar com prevenção é
sempre aquele ao seu lado. É ele que tem que abrir caminho para o “dono da
rua”.

“Na expressão Fé em Deus e pé na tábua estabelecemos um elo entre a
tradicional fé em Deus, esse deus que é invocado a todo o momento, fazendo
parte de nossa vida diária como protetor, e a metáfora da ligeireza do
movimento e da precipitação do pé na tabua, que nos conduz ao veículo
motorizado e ao ambiente igualitário que molda e serve de cenário. Supomos
que a pressa e a velocidade legitimam o risco e são partes integrais da
lógica e da estrutura deste ambiente, o que naturalmente o inclina a
infortúnios e acidentes. Essa expressão é um axioma e uma garantia. Ela
diz que podemos enfiar o pé porque nossa fé em Deus nos protege do perigo.
A nossa fé em Deus justifica os riscos de se dirigir com o pé na tábua. É
justamente este disparate (confiança num deus que nos protege e nas vidas
que podemos viver e a propensão ao risco, à intolerância e a impaciência
que objetivamos compreender”, define DaMatta.

Com a lucidez de grande analista, Roberto DaMatta produz uma sociologia do
trânsito e mostra um cenário que, embora seja duro de contemplar, desafia
Estado e sociedade a deixarem para trás antigas práticas na busca de
soluções.

http://www.rocco.com.br/shopping/exibirlivro.asp?Livro_ID=978-85-325-2600-7

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