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Alpinismo Urbano

26 de janeiro de 2011 | N° 9062
Sérgio da Costa Ramos
  • Alpinismo urbano

    Lestada, mar de rebojo, três dias de luto e nojo o velho ditado mané era uma espécie de coroa de flores sobre a desdita das vítimas das enchentes, que, de tempos em tempos, desgraçavam as pobres comunidades pesqueiras, fazendo desabar um oceano dos céus.

    A diferença é que as “lestadas” agora duram 30 dias e o “carnegão de nuvens” assombra Santa Catarina com tragédias que teimam em se repetir com uma sequência assassina. Sobre o Norte do Estado, durante apenas dois dias, choveu mais de 600 mm – e este mesmo mar alado já havia caído sobre o Vale do Itajaí no fatídico novembro de 2008. Parece que todos os “facínoras da Natureza” se encontram sobre o mapa de Santa Catarina, para o qual convergem as frentes frias e as quentes, as frentes úmidas estacionárias, os ciclones tropicais e até os furacões.

    E há, ainda, para consumar esse Apocalipse das Águas, um relevo propício à formação de nuvens. Montanhas íngremes e grandes vales, configurando formidável berço para abrigar e embalar as tempestades.

    A prosa vigorosa do ex-governador Jorge Lacerda descreveu, certa vez, com sábia maestria, essa “convulsão telúrica” que, apesar de extremamente bela, favorece e estimula a inclemência do clima.

    “O que surpreende o viajante em Santa Catarina é a verdadeira insurreição da terra contra a marcha do homem. O chão catarinense foi sacudido por uma convulsão de serras. Para dominá-lo, foi mister a obstinação heróica daquelas raças que trouxeram do Velho Continente a decisão da luta e a paixão pela nova pátria”.

    Este sofrido e heroico povo já está habituado a ser confiscado de seus bens – até do bem maior, que é a vida – ao longo dos últimos anos em que as mudanças climáticas parecem ter escolhido Santa Catarina como campo de provas para o seu cabedal de horrores.

    Se a imponderabilidade do clima é um risco “indecifrável”, o risco humano haveria de ser consideravelmente diminuído pela simples mudança da “disciplina urbana” e o mero cumprimento das leis de ocupação do solo. Sejam clandestinas ou toleradas, as edificações em morros e aclives de mais de 45% de inclinação proliferam nas cidades superpovoadas, a desafiar as leis da gravidade e da geologia.

    O homem, sem um Plano Diretor, ou a coerção fiscalizadora do Estado, insiste em praticar um temerário alpinismo urbano, empoleirado em sarcófagos que a chuva transforma em mortalha.

    A “responsabilidade”, essa obrigação contra a qual o ser humano luta, recusando-se a assumi-la, sempre que malfeitos ganham consequências desagradáveis, está “na cara” de todos os cidadãos. Só no Brasil empresas concessionárias de serviço público de água e luz ligam seus serviços a construções clandestinas – verdadeiros “contratos” com a morte em casas dependuradas nas encostas rolantes.

    Como se explica a ligação de luz e água em casa que não possui o devido Habite-se? Liga-se apenas pela cupidez de engordar a “receita?

    Quantas cidades de médio porte e arriscada morfologia de solo, assentadas entre as montanhas e os mares, ou os rios, como Floripa e Blumenau, já votaram e já cumprem um Plano Diretor confiável e uma vigilante lei de ocupação dos solos?

    Ao baixar das águas, no imenso vale de lágrimas que se derrama pelo Brasil, da serra fluminense aos baixios do norte catarinense, boia a culpa da omissão e do desleixo.

    Vigiar e exercer o “múnus público” de só autorizar moradias em locais próprios para a vida social, seria mais simples e mais seguro do que protagonizar tragédias e chorar por tantos mortos – já são quase mil em todo o Brasil.

    Um dia, o administrador público vai exercer a sua autoridade e proibir o alpinismo urbano, que condena o brasileiro a morrer vítima da pior avalanche: a que junta os detritos da omissão à lama da insensatez.

    Original no DC aqui.

 

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